Dando continuidade a nossa série de entrevistas com personalidades do mundo olímpico trouxemos hoje uma convidada mais do que especial! Lilian Arai é a criadora do grupo “Pais Olímpicos” no Facebook e escritora do livro também intitulado Pais Olímpicos. Confira!

1. Para começar, conte um pouco de sua história.

Meu nome é Lilian Ishida Arai, tenho 2 filhos: o Fábio, com 22 anos e a Karina com 21 anos. Sou médica otorrinolaringologista formada há quase 30 anos na Faculdade de Medicina da USP.
Há 10 anos, meu filho ganhou sua primeira medalha na Olimpíada Paulista de Matemática (OPM).
Nessa olimpíada, os alunos realizam a última fase no sábado de manhã e o resultado sai no final da mesma tarde, sendo que os pais são convidados a participar da cerimônia de premiação. Em um anfiteatro enorme, reúnem-se os melhores alunos de matemática do Estado de São Paulo, e ninguém sabe quem receberá medalhas.

Naquele dia chegamos lá sem grandes expectativas. Em certo momento, anunciaram os medalhistas de ouro e ouvi o nome do meu filho:

Uau!!! Nem sei quem tremia mais, ele ou eu!

Pois é, nesse momento nasci como “MÃE OLÍMPICA”.

 

Depois dessa medalha vieram mais umas 30, sendo algumas internacionais: IPhO (Olimpíada Internacional de Física) e IOAA (Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica). Foi aceito nas universidades POLI-USP, Caltech, Princeton, Columbia, UC Berkeley e Duke. Optou pela Caltech onde se formou em Engenharia Elétrica neste ano e lá iniciou seu mestrado.

 

Minha filha não seguiu o caminho das olimpíadas. Desenvolveu outros talentos e interesses com paixão e dedicação, sendo que atualmente está no 3º ano da Faculdade de Medicina do Einstein. Desde pequena sonhava em ser médica. Estudou demais na época do vestibular (e continua estudando!). Tenho imenso orgulho em vê-la se transformando em uma profissional competente, com ética e valores muito bem firmados.

E assim, aos poucos, vem surgindo uma sensação de “missão cumprida”. Sempre me vi incumbida de conduzir meus filhos a encontrarem seus próprios caminhos embasados em retidão de caráter, dedicação, amor a si mesmo e ao próximo, consciência de suas responsabilidades pessoais e para com a sociedade, entre outros valores. Outrora havia uma chama em meu coração para manter iluminado os caminhos dos meus filhos, hoje, sou eu mesma que me sinto impelida a fazer algo. Sinto que meu papel é contribuir, ao menos minimamente, para uma mudança de percepção sobre a importância de uma Educação de alto nível, onde cada criança cresça assumindo sua responsabilidade em aprender e cada família assuma seu papel de educá-la.

 

2. Como surgiu o grupo Pais Olímpicos?

Eu sempre fui aquela mãe que curtia participar de tudo que os filhos faziam. Quando meu filho decidiu estudar fora, incentivei-o ao máximo. Mas, eis que chegou o dia dele voar e meu ninho esvaziar.

Puxa, sofri demais!

Então comecei a escrever um blog, como um diário de desabafo. Era para ser secreto, mas sem querer deixei aberto e meu marido leu. E ele me incentivou a publicar.

A partir disso, muitos pais começaram a me perguntar sobre como eram os caminhos das olimpíadas e de estudar fora. Foi assim que há quase 4 anos nasceu o grupo “Pais Olímpicos” no Facebook: um grupo fechado para pais de alunos de alto potencial e desempenho acadêmico, que participam ou não de olimpíadas, mas que sabem da importância da tríade ALUNO-FAMÍLIA-ESCOLA como base para o sucesso acadêmico dos filhos. Nesse grupo compartilhamos experiências, tiramos dúvidas, divulgamos oportunidades e conhecemos outros pais que acreditam que a educação é o maior bem que podemos deixar de herança aos nossos filhos.

Estendo aqui meu convite a quem quiser entrar no grupo. É só solicitar participação clicando aqui.

 

3. Como surgiu o livro Pais Olímpicos?

Nosso grupo no Facebook foi crescendo e cada vez mais eu me fascinava com histórias incríveis de alunos que sonhavam grande e batalhavam pelos seus sonhos. Resolvi juntar algumas, descrevendo através do olhar dos pais, quais os passos da trajetória do sucesso acadêmico de seus filhos.

Muitos alunos que se destacam nas olimpíadas optam por estudar fora, mas o sistema de admissão para essas universidades é muito diferente de um vestibular. Então, procurei explicar através de cada história como são os bastidores do mundo olímpico, o processo de “application”,os desafios e as dificuldades em todo esse caminho. O que diferencia o aluno olímpico não é apenas a sua enorme abnegação e dedicação aos estudos, sabendo quanto custou conquistar cada uma de suas medalhas. Mais do que as medalhas, talvez a forma com que cada um lidou com suas “não medalhas” foi determinante para alcançarem vôos tão longos. Também contei histórias de alunos que mesmo sendo brilhantes academicamente, não optaram pelo caminho das olimpíadas ou de estudar fora. Falei sobre o vestibular para Medicina que é extremamente concorrido aqui no Brasil. Além disso, sobre as diversas possibilidades de intercâmbios durante ou após uma graduação e quais as possibilidades que existem depois que o aluno se forma.

A grande certeza é que estudar com paixão abre inúmeras portas de oportunidades, mas só conquistam seus sonhos aqueles que se dedicam e aprendem através da resiliência, que nunca podem desistir.

Quem desejar adquirir o livro, é só solicitar clicando aqui.

 

4. Como nasceu a paixão por olimpíadas?

Existe uma magia que envolve as olimpíadas. O mundo dos olímpicos é fascinante para quem faz parte dele. Só quem vive nesse mundo entende quão viciante, extenuante e excitante é ser aluno olímpico.

Esses alunos quebram o estigma de nerds e se transformam em mitos.

Nesse processo, os pais acabam se tornando cúmplices, seja vibrando, sofrendo junto, enchendo-se de orgulho, amparando ou incentivando seus filhos em vários momentos de suas vidas.

Em meu caso, acredito que o fato de eu ter sofrido tanto quando meu filho voou do ninho fez surgir em mim uma enorme necessidade de transformar essa dor em algo que fosse produtivo. Quanto mais compartilhava uma experiência, mais renovada ia me sentindo. Dessa forma, as olimpíadas passaram a fazer parte da minha vida, ainda hoje, mesmo não tendo mais filhos participando delas.

 

5. Como os pais podem ajudar seus filhos nessa etapa?

Bem, tudo parece tão fácil quando o aluno tem facilidade para aprender, não?

Afinal, até agora só falei de alunos que participam de olimpíadas, são engajados e têm facilidade de aprender.

No entanto, como otorrinolaringologista, atendo crianças do lado oposto desse desempenho acadêmico. Muitas crianças chegam para mim porque têm dificuldades na aprendizagem, seja por transtornos no processamento auditivo, dislexia, discalculia, transtornos de atenção ou espectro autista, distúrbios de sono, déficits auditivos, etc. As notas que esses alunos almejam é apenas o mínimo para passar de ano.

Foi aí que surgiu mais uma inquietação: quais são os determinantes para uma criança querer superar seus limites? Como desenvolver ao máximo o potencial de crianças que apresentam alguma dificuldade ou transtorno?

 

Cada vez mais me empenho em trabalhar com crianças com dificuldades na aprendizagem. Posso dizer que me considero uma médica apaixonada por Educação. Assim, resolvi criar outro grupo no facebook, o “Pais Parceiros no Aprendizado”,  direcionado aos pais de crianças no início da escolarização. Nele conto algumas histórias de pacientes refletindo sobre caminhos a serem aprimorados. Quem quiser participar, também é só solicitar clicando aqui.

 

6. Qual mensagem que você deixaria para os pais?

O papel dos pais é transmitir valores e princípios através de seu exemplo, incentivando os filhos a sonhar grande e acreditar em seu próprio potencial, ensinando-os a persistir na busca de seus sonhos através da dedicação e resiliência, acalentando-os sempre que precisarem.

Existem pais incríveis, que sabiamente encontram este ponto de equilíbrio. Infelizmente, vejo muitos que quase não participam da vida de seus filhos, como também existem pais que projetam seus próprios sonhos no futuro das crianças, exigindo resultados brilhantes a qualquer custo.

Enfim, não existe uma receita mágica para criar bem um filho, mas existem vários pontos em comum. Não existe certo ou errado, apenas boas e más experiências. A grande verdade é que nós, pais, também precisamos sempre aprender, para cada vez mais exercer melhor nosso papel!

 

7. Para finalizar quer acrescentar algo que não foi dito?

O conceito antigo de inteligência baseava-se em nível de conhecimento. Atualmente, entende-se como sendo a capacidade de solucionar problemas. É exatamente essa a proposta das olimpíadas, instigar o aluno a desenvolver um raciocínio diante de uma situação problema. Esse DESAFIO gera uma postura cognitiva motivante. Quanto mais ele descobre que é capaz de resolver um problema, mais se motiva a tentar algo de maior complexidade. Então estuda para aumentar sua bagagem de conhecimento e avançar para o próximo nível. E assim surge uma paixão por olimpíadas e ele ousa SONHAR GRANDE. Pois é, para os pais cabe a sabedoria de orientar como lidar com situações difíceis, quando motivá-los ou ampará-los, sempre atentos para sinais de burnout (esgotamento). Infelizmente, muitos pais confundem expectativa com cobrança e acabam pressionando seus filhos a conquistarem bons resultados. Outros não se envolvem ou nem valorizam o esforço. Enfim, tudo isso é um aprendizado para a família também e é muito válido trocar experiências com outros pais e educadores, firmando uma grande base ALUNO-FAMÍLIA-ESCOLA.

Talvez, seja esse o grande segredo dos alunos com excelentes resultados olímpicos!