Entrevista Obmepeira com a mãe olímpica Nara Bigolin #06

Na entrevista de hoje mais uma grande convidada especial está presente! Nara Bigolin é doutora em IA e professora há 25 anos. Também é criadora do movimento Meninas Olímpicas e mãe olímpica! Confira abaixo e conheça um pouco de sua história 🙂

Antes das perguntas conte um pouco de sua história

Meu nome é Nara Bigolin, minha formação acadêmica é em Computação com mestrado pela UFRGS e doutorado em Inteligência Artificial pela Universidade de Paris VI. Trabalho há 25 anos como professora pesquisadora em universidades do Brasil e da França. Atuo na área da Inteligência Artificial e desigualdade de gênero em pontos estratégicos da sociedade. Este ano fui finalista do Prêmio Educação do SINPRORS  e honrada com o Troféu Mulher Cidadã RS 2018 na modalidade Educação, concedido pela Assembléia Legislativa do RS, devido ao trabalho realizado com a Educação Básica. Veja sobre isto clicando aqui.

Finalmente, a parte mais importante de minha trajetória é ser mãe de 3 filhos: Mariana, Natália e Lucas. Em 2013, a Mariana fez a OBMEP pela primeira vez e lá estava ela entre os medalhistas de Ouro. Dia 29/11/2013 nascia uma mãe olímpica e descobrimos um novo universo, o mundo olímpico.

Em 2014 e 2015 foram muitas medalhas em Matemática, Física, Química, Informática e Astronomia, e pela primeira vez uma menina conquistou o 1º Ouro da OBM Nível 2, estudando sozinha com vídeos do POTI. Neste mesmo ano, ela conquistou Ouro na OBF. Feito inédito.

Em 2015, Natália, aos 11 anos ,conquistou sua primeira medalha de Ouro na OBMEP, depois Ouro na OBI. Em 2016, as  duas estavam na Semana Olímpica de Informática.

Em 2018, pela primeira vez, havia duas irmãs em treinamentos das olimpíadas internacionais de matemática.

Hoje elas são detentoras de mais de 50 premiações em olimpíadas científicas, sendo 5 em olimpíadas internacionais.

Ser mãe olímpica me impôs um projeto social muito importante, pensar no acesso ao conhecimento às meninas e tentar diminuir a diferença entre o ensino público e privado no Brasil, e por isso eu integro a comissão da Sociedade Brasileira da Computação que estuda a implantação da Computação no Ensino Básico público brasileiro.

Os prêmios que recebi nesse ano, na área de Educação, foi em reconhecimento ao desempenho diferenciado de minhas filhas nas olimpíadas, mesmo elas tendo sempre estudado em escolas públicas. Enfim, ser mãe de duas meninas olímpicas multimedalhistas é extraordinário, único.

Como surgiu o projeto Meninas Olímpicas?

Em 2016, havia um treinamento para as olimpíadas internacionais de matemática, e de 25 alunos convidados, apenas uma era menina. No mesmo ano, a delegação de premiados do RS nas olimpíadas de Química tinha 10 alunos e apenas 1 menina. Analisando os premiados notamos que existiam pouquíssimas  meninas medalhistas de ouro na OBM, na OBF e na OBI e verificamos que as meninas sempre são minoria em todas as olimpíadas. Dos 240 alunos participantes da IMO, apenas 6 meninas compuseram as equipes.  Em 2017, dos 116 medalhistas de ouro da OBF, apenas 3 eram meninas.

Verificamos que no IMPA, que coordena as olimpíadas de matemática, de 50 pesquisadores tinha apenas 1 mulher. Depois de analisarmos os últimos 10 anos das olimpíadas, verificamos a participação feminina por níveis:

 

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Na OBA tem 50% de meninas premiadas do Nível 1, mas na OBM, na OBI e  na OBF, elas são em torno de 5% no Nível 3.

O efeito funil que acontece nas Olimpíadas Científicas acontece também nas Ciências Exatas.

Por exemplo, as bolsas de iniciação científica financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), 59% são de mulheres. Já para as bolsas 1A, consideradas as mais prestigiadas pelos pesquisadores, apenas 24,6% pertencem as  mulheres. Entretanto, estes números são ainda piores na Academia Brasileira de Ciências, órgão mais prestigiado do país, onde apenas 14% das vagas são ocupadas por mulheres. Se falarmos da quantidade de mulheres detentoras do Prêmio Nobel, reduz para 5%.

Devido a isso,  acreditamos que  se aumentar o número de Meninas Olímpicas, irá aumentar o número de mulheres em cargos de prestígios.

Nosso maior sonho é que  o projeto Meninas Olímpicas impacte na participação feminina nos prêmios Nobel. Neste ano, um fato inédito aconteceu, 3 mulheres ganharam o prêmio Nobel, na Física, na Química e na Paz.

Outro fato interessante que descobrimos  foi um comportamento social no Brasil. Os estudantes dedicados são separados em dois grupos: as meninas fazem Medicina e os meninos fazem olimpíadas e depois cursam Engenharia no ITA, no IME ou nos EUAs. Concluímos que o mundo olímpico era masculino. Para os meninos as olimpíadas eram um caminho natural, já as meninas precisam diariamente vencer barreiras.  Os coordenadores de olimpíadas são todos homens, os professores olímpicos são mais de 90% homens. O mundo olímpico não compreendia o mundo das Meninas Olímpicas, e então era necessário fazer uma discussão sobre isso. Neste contexto nasceu o projeto Meninas Olímpicas.

O que o movimento promove de ações atualmente?

A primeira iniciativa foi abrir a discussão sobre a minoria feminina nas olimpíadas para entender o fenômeno. Depois,várias iniciativas aconteceram:

– Divulgação de toda a comunidade de Meninas Olímpicas através de relatos e divulgação dos resultados das meninas através da Pagina no Facebook.

–  Incentivo para a criação de premiações especiais para as meninas juntos aos coordenadores de olimpíadas. Muitas olimpíadas estaduais (OPM, OQ-SP, OGF) , nacionais (OBFEP, OBMEP, OBF) e internacionais (IMO, IphO, Conesul) já criaram premiações especiais e muitas outras irão criar este ano.

Um fato lamentável foi  a criação do Troféu IMPA Meninas Olímpicas na IMO 2017 sediado no Brasil, no qual a criação do troféu ficou condicionado ao projeto Meninas Olímpicas não ser mencionado e para fazer justiça, fomos homenageadas no ano seguinte durante na IMO na Romênia. Veja o vídeo clicando aqui.

– Todos os anos, o projeto junto a Procuradoria da Mulher da Assembléia Legislativa do RS, faz uma homenagem a todas as meninas medalhistas de ouro, o que tem dado um excelente resultado. Veja o vídeo clicando aqui.

No RS, o percentual de medalhistas de ouro da OBMEP tem dobrado a cada 2 anos. Em 2013 eram 4 meninas, em 2015 foram 9 meninas e em 2017 foram 15 meninas. Neste ano, na Olimpíada Regional de Matemática tivemos 66% de meninas premiadas no nível. Em nosso município, as medalhistas de ouro da OBMEP são 100% meninas.

– Junto aos coordenadores das olimpíadas internacionais temos discutido a possibilidade de equipes mistas. As olimpíadas internacionais de Astronomia já adotaram as equipes brasileiras mistas. O presidente da IMO está analisando as possibilidades. O objetivo é que hajam treinamentos  específicos para as meninas.

A nível nacional, na OBMEP houve uma reação positiva em 2016, onde tivemos 33% de meninas medalhistas, sendo maior índice registrado na OBMEP. Acreditamos que em 2018, os números serão ainda maiores. Na Cerimônia de Premiação da OBMEP 2017, as meninas tiveram uma homenagem especial do Ministro da Educação. É o Brasil sendo sensibilizado: clique aqui para ver.

Em 2018 tivemos um número recorde de meninas que participaram de olimpíadas internacionais. São elas:

Ivna de Lima Ferreira Gomes pelo desempenho nas Olimpíadas Internacionais de Química, Mariana Bigolin Groff, Mariana Quirino de Oliveira, Ana Beatriz Cavalcante Pires de Castro Studart e Débora Tami Yamato pelo desempenho na EGMO – Olimpíada Européia de Matemática para Meninas; Sarah Leitão Melo e Katarine Emanuela Klitzke nas Olimpíadas Internacionais de Astronomia e Beatriz Cunha Freire pelo desempenho nas Olimpíadas Ibero-americana de Informática.

Como é a Nara como mãe olímpica?

Intensa. Me sinto mãe de todas as meninas olímpicas do Brasil. Me preocupo com cada menina olímpica, pois conheço as dificuldades que elas enfrentarão no mundo olímpico. A grande maioria das mães olímpicas atuantes são mães de meninos, por isso essa pauta não era abordada.

Como foi acompanhar suas filhas recebendo desde a primeira medalha até as premiações de hoje em dia?

Simplesmente incrível. Mariana e Natália são detentoras de mais de 50 medalhas em olimpíadas científicas nas mais diversas áreas. Houve momentos incríveis, como nas cerimônias de premiações ou treinamentos, onde Natália e a Mariana estavam juntas e tive a honra de colocar as medalhas nelas. Na cerimônia de premiação da OBM 2017, eu tive o privilegio de  anunciar a equipe da EGMO (Olimpíada Europeia de Matemática para Garotas), da qual a Mariana faria parte.  Enfim, as meninas são poucas nas olimpíadas e ser mãe de duas delas é extraordinário.

Para você, quais os benefícios de participar de olimpíadas científicas?

O principal beneficio é o conhecimento, além da integração com jovens do Brasil e do mundo,  abrindo assim muitas portas. As olimpíadas transformam a vida dos adolescentes.

Qual mensagem você deixa para a comunidade olímpica?

Aos pais e mães de meninas: incentivem suas filhas, pois elas são extraordinárias e podem ter resultados incríveis nas olimpíadas e serem protagonistas de sua própria história. Aos país e mães de meninos: aconselhem aos seus filhos a serem receptivos com as meninas olímpicas, pois o ambiente olímpico é ainda muito masculino. Aos coordenadores de olimpíadas: precisamos de políticas olímpicas para aumentar a participação feminina, seja com equipes mistas, seja com mais professoras nos treinamentos olímpicos ou ainda com a criação de premiações especiais. Porque não criar um fórum com todos os coordenadores de olimpíadas para discutir o assunto? O aumento da participação feminina nas olimpíadas depende de vocês. O mundo olímpico será melhor com mais meninas!!

Há algo que não foi perguntado e que quer acrescentar?

Se desejarmos tirar o Brasil do mapa de um dos países mais desigual do mundo, precisamos incentivar as nossas Meninas Olímpicas. Pais e mães, incentivem suas filhas desde pequenas em atividades desafiadoras, assim estaremos construindo um mundo mais igualitário!!

Diretora Pedagógica

Graduada em Matemática - UFRGS Pós graduanda em Psicopedagogia -PUCRS Área de pesquisa: Neurociência e aprendizagem, materiais didáticos e olimpíadas científicas

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